Corridas por apps em Fortaleza completam 10 anos em meio a reclamações de motoristas sobre ganhos

  • 03/05/2026
(Foto: Reprodução)
Motoristas de aplicativos em Fortaleza lutam por maiores ganhos para a categoria. Fabiane de Paula/SVM Era comum, há dez anos, o passageiro entrar em um carro de aplicativo em Fortaleza e ser perguntado se aceitava água, chocolate, etc. Uma década depois, o cenário mudou para as reclamações de passageiros sobre a demora em conseguir uma corrida. Mas como o serviço mudou tanto em dez anos? Do outro lado da moeda, as respostas de motoristas são quase unânimes: a média de ganhos mensal não permite mais adoçar as viagens. A Uber começou a operar em Fortaleza em 29 de abril de 2016, há 10 anos, com a modalidade UberX (exclusiva de carros) - que segue disponível. No ano seguinte, começou a operar a empresa 99 na capital cearense, também com carros. Em junho de 2021, começaram a circular as motos da Uber na capital. Um ano depois, aconteceu a chegada da categoria 99 Moto. Esta é a terceira reportagem de uma série publicada pelo g1 que aborda os aspectos e impactos do serviço de corridas por aplicativos de transporte em Fortaleza ao longo de uma década. Corridas por apps em Fortaleza completam 10 anos em meio a reclamações de motoristas sobre ganhos. Louise Anne Dutra/SVM LEIA TAMBÉM: De irregular a indispensável: transporte por app em Fortaleza completa 10 anos com impactos na mobilidade Estimativas recentes mostram que a média mensal de ganhos dos profissionais pode chegar a R$ 5.142, com lucro líquido de R$ 1.947. Há dez anos, o condutor poderia lucrar até R$ 5,1 mil. Do outro lado, os passageiros se dividem entre escolher os deslocamentos mais rápidos e práticos, mas que nem sempre se mostram tão disponíveis devido à demora em aceitar a solicitação. Uma década no volante Romário Fernandes é motorista de app em Fortaleza há 10 anos e avalia mudanças no serviço. Um dos primeiros condutores a começar na cidade foi Romário Fernandes, que iniciou no serviço em maio de 2016. Ele foi um dos inúmeros motoristas que optou pelos aplicativos em um momento de necessidade financeira, pois havia sido demitido de um emprego em que passou seis anos. “Eu peguei o dinheiro das minhas contas, da minha rescisão contratual naquele período, e acabei financiando um carro, e estou até hoje. Não imaginava que estaria aí há 10 anos já trabalhando nas plataformas digitais, conhecendo quase todos os bairros aqui da nossa querida cidade de Fortaleza”, disse o motorista. Romário vivenciou todas as mudanças nas plataformas durante esses dez anos; hoje, o serviço nos aplicativos é a principal renda dele. “Continuo fazendo as minhas outras coisas, eu faço faculdade de Direito. De manhã, estou na faculdade, da tarde para a noite eu estou rodando na cidade”, explicou o motorista que encontrou no serviço de motorista de app a possibilidade de conciliar trabalhos e estudos. Romário Fernandes trabalha como motorista de apps em Fortaleza desde maio de 2016. Kid Junior/SVM Apesar da possibilidade de fazer a própria rotina de trabalho, Romário não nega que houve uma desvalorização da renda como motorista nos últimos anos. “Hoje, infelizmente, para o motorista de aplicativo, os ganhos diminuíram bastante, a carga horária aumentou, que hoje é a nossa maior dificuldade depois desses 10 anos trabalhando como motorista de aplicativo”, lamentou. “Acho que se você for entrevistar, 99% dos motoristas vão falar [que o que piorou] são os ganhos. Infelizmente, quando a Uber iniciou em Fortaleza, lá em 2016, o ganho mínimo de uma corrida era R$ 4,50. Dez anos depois, ela paga R$ 5,80. Depois de tudo isso, aumentou o combustível, a depreciação do carro aumentou, o custo, troca de óleo, pneu, tudo isso aumentou. E com isso, consequentemente, a gente é obrigado a trabalhar mais horas na rua”, destacou Romário. Romário, atualmente, opta por dirigir apenas na região central de Fortaleza, especialmente após um episódio em que foi vítima de um sequestro por dois criminosos que usaram o carro dele para fazer uma série de assaltos na região do Grande Bom Jardim. Apesar da violência sofrida, ele apontou o reforço nas medidas de segurança como um dos pontos positivos ao longo da última década. “Anteriormente, a gente aceitava a corrida sem sequer saber o destino que ia; ali favorecia muito para que os motoristas fossem assaltados. Mas hoje, as ferramentas que as plataformas colocam, principalmente essa parte de inteligência artificial, o algoritmo, melhorou demais. Hoje, o motorista de aplicativo consegue ver qual o destino que ele vai, qual a nota do passageiro, qual a quantidade de viagens, o preço da corrida. Antigamente, a gente não tinha essas informações”, disse. teste gif uber Louise Anne Dutra/SVM Busca por equilíbrio Motoristas elogiam flexibilidade de horários, mas ainda trabalham diversas horas por dia, em Fortaleza. Fabiane de Paula/SVM Fabrício Ribeiro, diretor de Operações da 99, argumentou que a empresa funciona com uma taxa mais baixa em comparação com a concorrência. Ele disse também que a plataforma tenta buscar um equilíbrio entre o valor cobrado aos passageiros e os repasses aos condutores. "É um tópico que está sempre vivo a questão dos ganhos motoristas. E, obviamente, com um equilíbrio delicado, porque, de um lado, se a gente sobe demais, se a gente sobe os ganhos a partir de um certo ponto, o volume de corridas cai porque o passageiro não está disposto a pagar", comentou. "E com menos volume de corridas, no final das contas, o motorista é mais ocioso, o ganho líquido dele pode ser até menor. Então, muito do nosso trabalho também é encontrar esse equilíbrio de qual é o ponto que maximiza, que garante que ele está ocupado, porque tem demanda suficiente, com o máximo de ganho possível por corrida", complementou. Conforme Fabrício, os ganhos médios por quilômetro de Fortaleza são um pouco maiores que a média do Brasil. "Alguns cenários são impossíveis. Por exemplo, a gente botar a corrida mínima em R$20. A gente consegue fazer isso, mas o motorista vai ficar três horas esperando aparecer uma corrida e vai ficar ocioso a maior parte do dia e não consegue pagar o custo do carro dele. Porque o passageiro não está disposto a pagar isso. Então, a gente tem que encontrar um equilíbrio que seja bom para os dois", destacou. O g1 solicitou entrevista com a Uber onde questionaria a reclamação dos motoristas, mas a empresa não disponibilizou nenhum representante à reportagem. Corridas por apps em Fortaleza completam 10 anos em meio a reclamações de motoristas sobre ganhos Louise Anne Dutra/SVM Apoio à categoria Presidente da AMAP-CE, Evans Sousa comenta mudanças no serviço de apps de transporte. Dirigindo há quase dez anos, Evans Sousa é outro motorista de aplicativo da capital que acompanha de perto todas as mudanças no serviço ao longo da última década. Engajado na categoria, hoje ele ocupa o cargo de presidente da Associação de Motoristas de Aplicativo do Ceará (AMAP-CE). “A importância de uma associação é que ela cuida da parte burocrática. Às vezes, o motorista em si não tem o tempo e nem está mais atualizado com as normas, com as regras que acontecem. E através da associação, ela cuida dessa parte burocrática, onde o motorista pode ter acesso a um advogado sem pagar”, explicou Evans. A entidade representativa da categoria tem lutado por melhorias dentro das demandas dos condutores, como, por exemplo, o aumento dos repasses dos valores das corridas. “Hoje, o aplicativo pode ficar entre 30% e 60% do valor de uma corrida. A gente analisa que o valor justo seria entre 20% a 25% por causa da interlocução do aplicativo com o usuário, com o passageiro”, comentou Evans. Além das demandas, a AMAP-CE também elabora ações de apoio aos profissionais na cidade — categoria que já chegou a um pico de 12 mil associados, conforme Evans. Motorista de app há 10 anos, Evans Sousa ocupa a presidência da AMPA-CE. Fabiane de Paula/SVM “Nós temos a ‘Ação Motora’, que nós levamos todo tipo de serviço, desde o corte de cabelo, unha, maquiagem, atualização de documentos. Nós temos o ‘Super Girls’, que é um projeto voltado somente para as mulheres, onde a minha vice-presidente toma conta desse lado mais feminino, que a gente se preocupa com as nossas meninas. Também tem o ‘Pit Stop’, que é um dia feito para o motorista, que ele pega a família dele e vai para um clube de lazer onde ele não paga nada, almoça, toma banho, brinca e a gente ainda faz sorteios”, explicou. “E o projeto que eu acho mais bacana que a gente tem é o ‘Tamo Junto’. É um projeto que a gente ajuda motoristas que passaram por qualquer tipo de necessidade, acidente. A gente faz uma arrecadação, e diante de um valor que é arrecadado, a gente consegue contribuir com o dobro do valor para ajudar esse motorista”, complementou o presidente da associação. Corridas por apps em Fortaleza completam 10 anos em meio a reclamações de motoristas sobre ganhos. Louise Anne Dutra/SVM Opção prioritária de mobilidade Enquanto os motoristas lutam por mais valorização, os aplicativos de transporte em Fortaleza seguem avançando como um pilar da mobilidade urbana. Em 2025, Fortaleza registrou cerca de 520 mil passageiros utilizando o transporte público por dia, uma queda drástica em relação a 2015, quando esse número chegava a 1,15 milhão. Os aplicativos se tornaram a principal forma de locomoção dos namorados Fernanda Araújo e Vinicius Fioravante. “Atualmente eu uso aplicativos de transporte para basicamente tudo que eu vou fazer na minha vida. Para trabalho eu uso aplicativo de transporte, academia, às vezes para o mercado. Para tudo que eu puder usar, eu estou usando”, disse a fiscal ambiental. “Como não tenho carro, eu costumo usar muito aplicativo. Por mais que eu trabalhe em home office, eu uso muito aplicativo pra ir ao supermercado, pra ir a qualquer lugar que eu precisar”, reforçou o desenvolvedor web. O casal Fernanda Araújo e Vinícius Fioravante se locomovem exclusivamente com apps. Fernanda já foi usuária do transporte público na capital, mas, há seis anos, optou por usar exclusivamente os carros de aplicativo. “Normalmente, o que tem o melhor custo benefício é usar o aplicativo de moto. Só que, por questão de segurança, a gente acaba optando pelo carro. Quando a gente faz a soma de quantas vezes a gente usa, a gente percebeu que é uma coisa que cabe no orçamento em relação ao custo-benefício”, explicou. Para Vinicius, o serviço na capital apresenta evolução ao longo dos anos, mas ele apontou que ainda é necessário reforçar algumas estratégias de segurança. “Em algumas corridas a gente pode ativar ou não o código de confirmação. Isso eu acreditaria que era importante ter em todas as corridas, tanto para a segurança do passageiro, quanto para a do motorista também, porque qualquer um pode entrar no carro do motorista e pode não ser a pessoa que ele está esperando. Com o código de confirmação isso seria evitado”, destacou. O casal Fernanda Araujo e Vinícius Fioravante escolheu os apps de transporte como única forma de mobilidade em Fortaleza. Kid Junior/SVM Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/05/03/corridas-por-apps-em-fortaleza-completam-10-anos-em-meio-a-reclamacoes-de-motoristas-sobre-ganhos.ghtml


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